Entendendo “The Keep on the Borderlands”

Olá pessoal!

Como vocês já devem saber a esta altura, a Redbox está lançando uma aventura escrita por este que vos fala intitulada  “O Forte das Terras Marginais”, uma adaptação do clássico Keep on the Borderlands, uma das aventuras mais icônicas da história do D&D.

Facilmente encontrado na lista dos “10 melhores” de muitos jogadores das antigas, The Keep on the Borderlands é importante por várias razões, pois além de ser “puro Gygax”, é uma bela apresentação ao D&D, com diversos elementos que transbordam “old school”:  uma base para o grupo se equipar e recompor, descrição de várias possibilidades de aventura, espaço para o mestre criar e adaptar o material à sua campanha, empregados (os hirelings) para contratar, boatos dos arredores e muito mais.

Todas essas características foram levadas em conta e cuidadosamente planejadas para ao mesmo tempo dar um material de qualidade, com informações importantes para quem nunca teve contato com a arte de mestrar aventuras, assim como ser de fácil acesso aos mestres que desejam adaptar O Forte para suas campanhas e cenários.

Esta postagem visa explicar um pouco sobre a história deste módulo fantástico.

Com vocês, “B2- The Keep on the Borderlands”

B2-The Keep on the Borderlands (Gygax, 1978)

História:

Os aventureiros chegam na “Fortaleza” (chamada apenas de “Keep” até sua versão para 2ed) em busca de fama e fortuna. Descobrem que próxima à fortaleza estão as “Caves of Chaos”(Cavernas do Caos), um conjunto de cavernas onde vivem vários grupos de humanóides perigosos e criaturas caóticas. Além dos perigos das cavernas, existem bandidos, homens-lagarto e até um eremita louco que habitam as redondezas, representando um potencial perigo aos cidadãos da fortaleza.

Sobre a aventura:

The Keep on the Borderlands é uma aventura básica, por isso o código “B”. Como uma boa obra de Gary Gygax, o cenário tem uma ótima descrição dos arredores e da fortaleza em si, assim como alguns personagens importantes e um bom espaço para criar em cima disso tudo. Este módulo apresentava algumas regras rudimentares para aventuras fora das dungeons (apesar do foco dela ser uma dungeon, no caso, as Caves of Chaos) que não haviam sido incluídas no Basic Set.

A estrutura das Cavernas é na verdade como se fosse uma série de pequenas dungeons, o que permitia aos aventureiros (de 1-3 nível, de acordo com a capa) explorarem aos poucos e voltarem à Fortaleza para se recuperarem dos ferimentos, comprarem novos equipamentos, contratarem ajuda, etc.

A proposta do módulo é bem clara: auxiliar tanto o DM quanto os jogadores a se ambientarem com as regras, com a mecânica do jogo e o estilo proposto por Gygax. Isso tem um “custo”, vamos por assim dizer, que esta na falta de coerência na “fauna” local (elemento comum nos primeiros módulos).  Goblin, kobold, bugbear, minotauro, ogro, owlbear…essas criaturas vivem em certa “harmonia”, cada um na sua caverna, apenas esperando os heróis entrarem e tentar roubar seu tesouro.

Existe, contudo, uma “complexidade escondida” nisso tudo, um pano de fundo simples mas com muitas possibilidades. Um mestre com mais experiência pode fazer maravilhas com este módulo, precisando dar apenas alguns ajustes na trama.

Dentro ainda do conteúdo, tem dicas de como construir sua dungeon (e uma folha quadriculada em branco para tal), como criar NPCs (com direito a tabelinha de personalidade), dicas específicas para o DM e outras para os jogadores.

Apesar de não ser um módulo complexo, não pensem que é fácil. A noção de “iniciante” old school era diferente da que temos hoje. Nas aventuras dos anos 90 e adiante, “iniciante” era um jogador que precisava de certa forma ser “guiado” pelo mestre, até mesmo “dar a mão” para o DM na escuridão da dungeon.

Nos módulos dos anos 80 a coisa era um pouco mais complicada: o mestre é estimulado a ser justo mas imparcial, de forma que os desafios para iniciantes – bem pesados, se comparados com os atuais- são deveras mortais se tomados levianamente. Entrar nas cavernas sem preparo, sem plano, sem equipamento próprio, resultaria numa lição dura porém valiosa.

Não digo que as aventuras do 2ed em diante sejam fáceis. A diferença é que no tempo de Gygax, eles podiam se “dar ao luxo” de fazer as coisas até mesmo de forma meio “elitista”, sem se preocupar muito com o leigo que nunca havia jogado um wargame ou lido histórias do estilo “sword & sworcery”. A TSR foi se transformando aos poucos numa empresa que se tratava o RPG como um “brinquedo” ao invés de um jogo, e sabemos que existe uma grande diferença entre ambos. O resultado: a TSR fora vendida à Wizards of the Coast, que por sua vez fora comprada pela Hasbro – uma das maiores marcas de brinquedos do mundo.

Esta dificuldade não exclui os jogadores e mestres novatos, ela apenas presumia que o “nível de novatisse” fosse outro.

O livro ainda apresenta, além dos mapas, tabelas de consulta rápida muito práticas, como “monstros errantes”, “armaduras/armas/equipamentos”, “magias” e outras.  Uma curiosidade é a inclusão de um glossário, explicando termos específicos como “cowl” (o capuz de uma capa) e outros usados no livro (e marcados com um asterisco). Isso mostra a preocupação de Gygax com termos, e também é uma bela aula de história para iniciantes.

VERSÕES

Em 1985 o supermódulo B1-9 In Search of Adventure trouxe apenas a parte das Caves of Chaos como parte de uma trama maior (porém, mal elaborada e com algumas falhas).

O módulo original estaria disponível de novo em 1999, no Silver Anniversary Collector’s Edition (e é mais difícil de achar do que sua versão anterior!)

No mesmo ano foi lançado para Ad&d 2ed o Return to the Keep on the Borderlands. A história se passa 20 anos depois dos eventos da aventura original, e várias perguntas “em aberto”, como o nome da Fortaleza, são reveladas. Outro fato curioso foi a localização da aventura no cenário de campanha de Greyhawk, já que anteriormente chegou-se a atribuir sua localização ao cenário de Mystara.

Uma versão para o sistema HackMaster (que mistura aventuras old school e humor) foi criada em 2005, intitulada Little Keep on the Borderlands.

Por fim, em setembro de 2010, o módulo seria adaptado para as regras do D&D 4ª edição (como parte do D&D Encounters), ambientado no “mundo base” da 4ed, o “Nentir Vale”. 

Novelização

Em 1999, a Wizards of the Coast publicou Keep on the Borderlands, uma versão novelizada da aventura escrita por Ru Emerson para a série de livros Greyhawk Classics.

Participação Especial – (D&D 3.5)

No Player’s Handbook II para o sistema d&d 3.5 aparece uma bela gravura dos “heróis padrão” do livro se deparando com as Caves of Chaos.

MÚSICA

A banda Morbid Public fez um videoclip chamado “Keep on the Borderlands”, contendo algumas imagens do livro. Infelizmente não está mais presente no Youtube.

DADOS

The Keep on the Borderlands (TKotB) foi escrito por Gary Gygax e publicado em dezembro de 1979, para o Basic Set do D&D, com 28 páginas. Embora disponível para venda separadamente, este módulo fora incluído nas impressões de 1979 à 1982 (6ª-11ª) do Basic Set. Em 2004, a revista Dragon Magazine elegeu esta aventura como a sétima melhor aventura de todos os tempos.

É interessante pensar que este módulo fora escrito por Gygax (a história) na época anterior ao Basic D&D, e foi o segundo módulo (de apenas dois!) a ser publicado para o BD&D de Holmes, sendo posteriormente adaptado para o BD&D de Moldvay. Mais de um milhão e meio de cópias foram impressas.