Especializando especializações

Já presenciei nos diversos fóruns onde o Old Dragon é debatido (lista do Google Groups, Facebook, etc) uma discussão acerca de uma das características mais interessantes e flexíveis do Old Dragon: as especializações.

Basicamente, muitas pessoas depois de lerem o Manual Básico se perguntam por que um personagem não deveria seguir uma especialização. Elas oferecem um sabor diferente ao personagem, além de fornecer algumas vantagens e eventuais desvantagens. Digo “eventuais desvantagens” pois não são as desvantagens que de fato fazem o jogador refletir se vale mesmo a pena ou não adotar uma especialização, ao invés de seguir com um personagem “puro”.

O que quero dizer, de maneira mais direta, é que não existe incentivo para não seguir uma especialização.

Minha opinião a respeito do assunto é a de que usar as especializações apenas como uma “capa” diferente para o seu personagem é desperdiçar as oportunidades que o uso delas permitem.

Vamos pegar por exemplo a especialização Ilusionista para a classe Mago. Ela oferece a um personagem desta classe, que tenha o alinhamento Neutro, a possibilidade de criar ilusões cada vez mais poderosas e mais difíceis de serem detectadas. E qual o ônus para isso, de acordo com as mecânicas do jogo? Nenhum. Isso significa dizer que além das magias diárias, o Mago que escolher esta especialização terá um “poder” a mais por dia.

Essa é uma maneira de encarar as especializações com a qual eu não concordo muito. Usá-las dessa forma me parece um jeito de dar mais poder ao personagem com um custo zero. Mas acredito que, com um pouco de criatividade, tanto o mestre quanto o jogador podem transformar isso em algo marcante.

Voltando ao exemplo do Mago Ilusionista, poderíamos dizer que no mundo de campanha onde o jogo está acontecendo, de acordo com os preceitos da Deusa da Magia, apenas 13 Magos podem ser Ilusionistas ao mesmo tempo. Dessa forma, somente quando um dos treze Ilusionistas já existentes morrer, um novo poderá ser “empossado”.

Assim, colocamos uma espécie de ônus para que o jogador pense um pouco antes de simplesmente olhar para a sua ficha e dizer: “Vou virar ilusionista e criar diversas ilusões para ter mais poder”. O jogador que quiser que seu personagem siga a especialização de Ilusionista vai ter que pensar primeiro em encontrar um outro ilusionista no mundo, e tomar dele a sua posição. Ou talvez aceitar ser o aprendiz desse Ilusionista, que vai prometer passar o poder para ele quando estiver velho.

Esta adaptação tem como efeito colateral (positivo do meu ponto de vista) o fato de enriquecer o personagem e oferecer ganchos para aventuras. Talvez o grupo que o mago faça parte discorde de ir atrás de um mago Ilusionista PdM que certamente será mais poderoso. Ou então o mago Ilusionista envie o personagem em missões cada vez mais arriscadas.

Outro exemplo que podemos utilizar é a especialização Paladino, da classe Homem de Armas. Suas únicas exigências são ter o alinhamento ordeiro, e uma causa pela qual o personagem deve lutar, à escolha do jogador. Mas se fôssemos detalhar mais, talvez o Paladino não seria apenas uma “capa” religiosa para seu Homem de Armas. Quem sabe Paladinos no mundo de campanha sejam seres vistos como castos, santos e perfeitos.

Além de lutar por uma causa (e é lutar por ela mesmo, não apenas anotar na ficha e convenientemente esquecer), talvez seja requerido um voto de castidade (ou até mesmo uma castração), voto de pobreza, peregrinações frequentes, respeitar a hierárquica de uma ordem religiosa (e talvez se deparar com situações onde homens de fé corruptos usam seu poder e influência sobre o personagem para alcançar ganhos pessoais), etc.

Analogamente ao caso do Ilusionista, essa especialização, quando melhor desenvolvida, ganha um colorido e oferece diversos ganchos para as mesas. Além disso, evita o pensamento “vou escolher o Paladino como especialização para faturar uma Vingadora Sagrada mais para frente”.

De qualquer forma, considere sempre trazer um sabor a mais para suas mesas, oferecendo às especializações mais do que apenas diferenciações na mecânica. Desenvolver um contexto para enriquecer a campanha garantirá que as coisas aconteçam de forma mais orgânica. Com isso, todos os jogadores e o mestre se divertirão ainda mais.