Uma história da CCXP

A parte mais legal de eventos como a CCXP é a oportunidade que temos de conhecer gente nova, de mostrar as coisas que a gente gosta pra quem ainda não conhece, e hoje eu quero contar uma dessas histórias.

A Flavinha tava no stand quando apareceu um menino chamado Victor Hugo que queria conhecer o RPG, que já tinha ouvido falar, mas que nunca tinha jogado e que não sabia direito como funcionava. A Flavinha então o direcionou pro Igor Moreno, que tava lá, e que se prontificou a mestrar uma aventura de Old Dragon pro guri.

Bom, quem já jogou RPG com o Igão sabe como a coisa funciona, que ele mestra em outro nível, não há comparação. Como eu estava atendendo no stand naquele momento, pedi pra ele fazer o relato da micro sessão:

Abri a caixa e falei para ele escolher um dos personagens prontos. Ele folheou e escolheu o Kardathor.

Narrei que ele saiu a cavalo de um reino para buscar um tesouro perdido, pois sem esse tesouro o reino estaria indefeso contra uma invasão orc. Após dias ele vê na distância uma colina que se assemelhava a um crânio gigante, os dentes eram rochas naturais e a boca aberta tinha uma passagem escura para dentro, como se o convidasse a entrar. Ele cogitou voltar (garoto esperto), mas o lembrei que era um bravo guerreiro, e ele resolveu cumprir sua missão. Ao chegar na boca da caveira viu que não havia passagem, era rocha pura obscurecida pelas sombras. Ele teve a ideia de procurar uma porta secreta então pedi um teste de Sabedoria para explicar o sistema, embora não seja a forma normal do livro. Teve sucesso e achou um dente de pedra que pressionado revelou uma porta que se abriu na pedra.

Então abriu uma passagem escura atrás da porta que seguia por escadas de pedra. Como nao tinha tocha e quis improvisar uma batendo pedras umas nas outras, pedi um teste de SAB, que ele passou. Andou por 15m até achar uma arvore com galhos secos e fez uma tocha com eles.

O Victor disse que cautelosamente iria andar procurando pra ver se não pisava em nada e tal. Falei que percebeu que a porta atrás dele se fechou e sem rolagem mesmo (pra valorizar a boa ideia) encontrou um fio no chão. Ele passou por cima.

Mais à frente encontrou um corpo no chão. Um aventureiro que havia pisado num fio semelhante e fora morto por dardos envenenados. Ele tomou cuidado de cortar o fio, e nisso o aventureiro se levantou gemendo, um zumbi. O zumbi tentou morder ele, que defendeu com o escudo e enfiou a tocha na cara do monstro, que pouco se importou. O zumbi atacou com as garras mas o elmo do Kardathor o protegeu. Num ataque cortou o braço do zumbi, que tentou morder mas teve por fim a mandibula cortada e morreu.

Avançando abriu-se uma caverna com pilhas de moedas de ouro com o teto coberto de teias de aranha. Uma aranha gigante com garras e rabo de escorpião (usei a imagem da Arak-tachna) veio em direçao a ele. Ele tentou queimar a teia com a tocha mas falhou na Destreza para pular e fez uma jp de DES, na qual falhou e tomou dano pelo fogo.

No combate a aranha o atacou mas ele defendeu com o escudo. Nisso ele acerta com a espada cortando uma das pernas.

A aranha tentou mordê-lo mas falhou e o último ataque do Kardathor foi dano máximo (8+2) e narrei que quando ela vinha pra morder ele cravou a espada na garganta humanoide da criatura, que caiu morta.

Falei que agora era hora de levar todas as moedas dali… Mas como? Era algo pro próximo episodio.

Enquanto o Igor mestrava, passou um cara por ali e falou pro Victor: “você tinha que jogar com o resto dos dubladores do Stranger Things!”, coisa que chamou a atenção do Igão. No final da aventura, o Igor questionou o guri a esse respeito, e ele nos revelou que era um dos dubladores do Stranger Things, e que estava saindo de um painel com o resto dos dubladores. O Igão falou um “mas que legal! quem tu dublava?”, e, para a nossa surpresa, o Victor respondeu “Will Byers”.

Aqui no Rio Grande do Sul existe uma expressão que é “me caiu os butiá do bolso”, que é quando algo te supreende de tal forma que tu fica sem ação. Bom, naquele momento todo o stand da Redbox foi soterrado de butiás metafóricos.

Essa micro sessão de Old Dragon foi muito significativa em diversas camadas. O Victor provavelmente teve contato com o RPG através do trabalho dele com a série Stranger Things, que apresenta exatamente a versão do D&D que buscamos atualizar com o Old Dragon. Além disso, foi um exemplo claro da importância da representatividade. A escolha do Kardathor pelo Victor Hugo não foi coincidência, ele se viu no personagem que escolheu interpretar, e isso demonstra o quão acertada foi a decisão de termos um personagem negro entre os icônicos do Old Dragon.

No fim, o Victor adorou jogar o Old Dragon, e falou “vou juntar todo o meu dinheiro pra comprar essa caixa!”. Nesse meio tempo chegou o Mr. Pop, falando “de jeito nenhum! Nós vamos te dar a caixa básica do Old Dragon!”. A expressão de felicidade do Victor nos encheu o coração, foi muito honesta, muito sincera e muito, mas muito incrível.

Fizemos uma festa, tiramos fotos com o guri e tudo o mais.

No fim, depois que o Victor foi embora, o Mr. Pop falou “é complicado isso, criança nenhuma deveria ter que juntar todo o dinheiro que tem pra comprar um brinquedo”.

De todas as histórias da CCXP, essa foi a mais marcante pra mim. Nosso stand tinha 16m², mas, naquele momento, nos sentimos infinitos.